Já fui culpado disso mais vezes do que posso contar. Li um livro sobre presença e achei que ler o livro era a prática. Baixei um aplicativo de meditação e achei que usar o aplicativo era a iluminação. Entrei num grupo espiritual e achei que o grupo era o caminho.
Alan Watts chamava isso de chupar o dedo que aponta.
O ensaio dele “O Dedo e a Lua” mudou como penso sobre por que a prática espiritual muitas vezes falha. Não porque a prática está errada. Mas porque confundimos a prática com a realidade para a qual ela aponta.
O Dedo Apontando para a Lua
Watts usa uma velha metáfora budista. A doutrina é como um dedo apontando para a lua. É preciso ter cuidado para não confundir o dedo com a lua.
A maioria de nós faz exatamente isso. Chupamos o dedo que aponta da religião, filosofia ou autoajuda por conforto. Em vez de olhar para onde ele aponta, ficamos encarando o dedo. Discutimos sobre o dedo. Refinamos nosso entendimento do dedo. Entramos em comunidades baseadas em qual dedo preferimos.
Mas o dedo não é a lua. A ideia não é a realidade. A técnica não é a experiência.
Isso se aplica a tudo. Um mapa não é o território. Uma palavra não é a coisa. Uma crença não é a verdade. Quando você confunde o símbolo com a realidade que ele representa, está preso. Está na jangada, e está lá há anos.
A Jangada
Watts usa outra metáfora. A doutrina é como uma jangada para atravessar um rio. Quando você chega à margem oposta, deixa a jangada para trás. Não a carrega nas costas.
A maioria de nós nunca sai da jangada. Ficamos porque é familiar. Nos dá uma identidade. E temos medo de que sem a jangada, vamos nos afogar.
Mas ficar na jangada tem um custo. A correnteza te leva rio abaixo. Eventualmente você fica preso na jangada para sempre. Não pode avançar porque está ocupado demais mantendo exatamente aquilo que deveria te levar a algum lugar.
Isso acontece com técnicas de meditação, disciplinas espirituais, sistemas de autoajuda. São úteis no início. Depois se tornam obstáculos. Você está tão focado em fazer direito que nunca realmente o faz.
Por Que Ideias Não São Realidade
Watts diz algo que soa quase sacrílego: aquilo para que a religião aponta não é nada religioso.
A religião, com todo seu aparato de ideias e práticas, é um apontar. Ela não aponta para si mesma. Também não aponta para Deus, porque a noção de Deus é parte da religião. Aponta para a realidade. A experiência direta do que é.
Mas quando você se agarra à ideia, perde a realidade. É como alguém que acha o cardápio delicioso e se esquece de comer a refeição.
A confusão entre mapa e território causa muita ansiedade. Tratamos nossos conceitos como se fossem as próprias coisas. Discutimos definições. Defendemos visões de mundo. Lutamos por símbolos. Enquanto isso, a realidade continua acontecendo, quer a notemos ou não.
O Relance
Watts descreve um momento que a maioria de nós já teve. Um relance fugaz do que o dedo está apontando. Naquele momento, você vê que a vida comum, exatamente como é, é perfeita e autossuficiente. Sabe que não há nada para desejar ou buscar. Nenhuma técnica é necessária. Nenhum aparato espiritual. O objetivo está aqui.
Então você o perde.
E passa anos tentando voltar. Você retorna ao lugar original do encontro repetidamente, tentando pegar fios que não estão mais lá. É como se apaixonar à primeira vista e depois perder o contato. Você continua voltando ao local, esperando.
Mas a razão pela qual você o perdeu é que tentou segurá-lo. No momento em que transforma a experiência numa memória, numa meta, em algo a perseguir, ela desaparece. O relance está disponível apenas quando você não está tentando tê-lo.
O Problema com Técnicas
É por isso que Watts é cético em relação a técnicas de meditação. Para a maioria dos ocidentais, importar posturas de ioga ou rituais zen não é uma ajuda, mas um obstáculo. Você fica tão autoconsciente sobre fazer direito que nunca realmente o faz.
O mesmo acontece com a autoajuda. Você lê o livro, toma notas, faz o plano. Depois passa tanto tempo gerenciando o plano que se esquece de viver. A técnica se torna um substituto para a própria coisa.
Watts diz: “Se você realmente pode fazer a coisa em si, pode aceitar ou deixar os enfeites como quiser.” A capacidade de concentração relaxada é inata. Você não precisa importá-la da Ásia. Não precisa de um curso de dez semanas. Precisa começar. Em qualquer lugar. Onde quer que esteja.
Se você está sentado, sente-se. Se está fumando cachimbo, fume-o. Se está pensando num problema, pense. Mas não pense e reflita desnecessariamente, compulsivamente, por pura força do hábito nervoso.
Concentração Sem Autoconsciência
Watts faz uma distinção que a maioria dos psicólogos ocidentais perde. Concentração não é o mesmo que autoconsciência. Na verdade, são opostos.
Concentração real é o máximo de consciência e o mínimo de sentimento de ego. Você está plenamente consciente, mas não há um narrador interno comentando a experiência. Você não está se vigiando concentrar. Está apenas se concentrando.
É por isso que o estado de fluxo é tão bom. O eu desaparece na atividade. Não há separação entre você e o que está fazendo. O músico se torna a música. O escritor se torna as palavras. O atleta se torna o movimento.
Você não chega lá pensando sobre isso. Se tentar vigiar sua mente se concentrar, ela não se concentrará. Se você esperar a chegada do insight, parou de se concentrar.
O único jeito é agir. Sem demora ou hesitação. Apenas faça.
A Mente Furada
Watts descreve a mente indisciplinada como tendo um vazamento. Como um barril velho com juntas abertas que não consegue se conter. Pensamentos entram e saem. Você não consegue segurar nada tempo suficiente para realmente ver.
Isso não é uma falha moral. É o estado atual da maioria das mentes. E a solução não são tampas mais apertadas. É notar o vazamento e deixá-lo ser.
Notar já é suficiente. No momento em que você nota que está pensando sobre pensar, já está um passo afastado do vazamento. Não precisa consertá-lo. Só precisa vê-lo.
Por Que Ficamos Presos
Ficamos presos porque queremos segurança. Queremos certeza. Queremos um sistema no qual possamos confiar. Mas a realidade não é um sistema. Não é um conjunto de crenças. Não é uma prática.
Realidade é o que está acontecendo agora. O barulho do trânsito. O desconforto nas suas costas. O pensamento sobre o jantar. A luz na parede. Ela não se importa com seu progresso espiritual. Não se importa se você é iluminado. Ela apenas é.
Isso é ao mesmo tempo aterrorizante e libertador. Aterrorizante porque não há nada em que se segurar. Libertador porque não há nada em que se segurar. Você está livre.
Perguntas Frequentes
Como saber se estou confundindo o dedo com a lua?
Se você está discutindo sobre a técnica, provavelmente está no dedo. Se está defendendo sua prática, sua crença ou seu caminho, provavelmente está no dedo. Se está tentando convencer os outros, definitivamente está no dedo. A lua não precisa de defesa.
As práticas espirituais têm algum valor?
Sim, como jangadas. Podem te levar a algum lugar. Mas no momento em que se tornam fins em si mesmas, viram obstáculos. Use-as. Depois as solte.
E se eu precisar de estrutura para funcionar?
Você pode ter estrutura sem apego. Uma rotina não é o mesmo que uma religião. A diferença é se você desmorona quando a rotina quebra. Se sim, a rotina se tornou sua jangada.
Como vejo a realidade diretamente?
Pare de tentar. Olhe para o que está diante de você. Não através de pensamentos. Não através de rótulos. Apenas olhe. Isso é mais difícil que qualquer técnica de meditação. Mas também é mais simples.
E quanto a professores e gurus?
Professores podem apontar. Mas se começarem a vender o dedo que aponta, encontre outro professor. Os verdadeiros sempre te enviam para longe deles. Querem que você veja o que eles veem, não que os adore por vê-lo.
Isso é apenas mais um dedo?
Sim. E estou apontando para isso. No momento em que você percebe que isto é apenas mais um dedo, está livre para olhar a lua.
A Prática de Largar
Watts diz: “Para ver a lua, você deve esquecer o dedo que aponta, e simplesmente olhar para a lua.”
Isso não é uma técnica. É um reconhecimento. Você já está olhando. Já está vendo. O único problema é que está ocupado demais pensando sobre o que está vendo para realmente ver.
Então pare. Só por um segundo. Olhe para o quarto onde você está. As cores. Os sons. As sensações. Não como um exercício de meditação. Não como uma prática. Apenas porque isto é o que está aqui.
Essa é a lua. Sempre esteve aqui. O dedo era apenas uma distração.
O Que a Realidade Quer
A realidade não quer sua devoção. Não quer seu entendimento. Não quer sua crença. Ela apenas é.
Você pode discutir com ela. Pode negá-la. Pode construir filosofias elaboradas para explicá-la. Mas ela não se importará. O sol vai nascer. A chuva vai cair. As estações vão mudar. E você estará aqui, quer goste ou não.
A pergunta não é se você pode escapar da realidade. A pergunta é se pode parar de lutar contra ela tempo suficiente para aproveitá-la.
A prática de circular a consciência não é sobre escapar do corpo. É sobre notar que você já está nele. Que o corpo não é uma armadilha. É exatamente o que você tem procurado.
A Lua Sempre Está Lá
Da próxima vez que você se pegar agarrando uma técnica, uma crença ou um caminho, lembre-se do dedo e da lua. A coisa que você quer não é a coisa que está segurando. Nunca foi.
Largue o dedo. Olhe para cima. A lua está bem ali. Sempre esteve.
E é linda.
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