Passei anos tentando ser mais presente. Aplicativos de meditação. Exercícios de respiração. Cursos de atenção plena. Toda seção de autoajuda tem uma versão desse conselho. E toda vez, acabo me sentindo fracassando em estar presente.
Então li o ensaio de Alan Watts “Torne-se Quem Você É” e percebi algo estranho. O problema não é que não consigo estar presente. O problema é que acho que estar presente é algo especial.
Não é. O momento comum é o que importa.
O Agora Eterno Não É um Destino
Watts escreve: “A vida existe apenas neste exato momento, e neste momento ela é infinita e eterna.”
Isso soa místico. Mas ele está fazendo uma observação simples. O passado não existe. O futuro não existe. Há apenas este momento. Sempre houve. Sempre haverá.
Você não pode escapar dele. Não pode alcançá-lo. Não é um lugar aonde você vai. É onde você já está.
O erro é pensar que o agora é um estado que você alcança através da prática. Como um nível num jogo que você desbloqueia após horas suficientes de meditação. Mas o agora não é um nível. É o chão. Você já está pisando nele.
O Que É o Tao?
Watts cita um diálogo Zen. Um aluno pergunta ao mestre: “O que é o Tao?” O mestre responde: “A vida cotidiana é o Tao.” O aluno pergunta: “Como se entra em sintonia com ele?” O mestre diz: “Se você tentar se harmonizar com ele, se afastará dele.”
Este é o paradoxo. A coisa que você está buscando é a coisa que você está fazendo enquanto a busca. Você não pode se aproximar do momento presente porque nunca o deixou. Só pode notar que já está aqui.
A confusão entre mapa e território se aplica aqui. Todos os ensinamentos espirituais, todas as técnicas de meditação, todas as estruturas de autoajuda são mapas. Eles apontam para o território. Mas ficamos olhando para os mapas e esquecemos de olhar para o chão real sob nossos pés.
O Teste do Saleiro
Watts conta uma história sobre pessoas num restaurante discutindo a realidade. Perguntam a um deles o que é a realidade. Ele dá de ombros e aponta para o saleiro.
Ninguém o entende. Estão todos procurando algum tipo especial de existência. Acham que realidade é um conceito metafísico, algo que se acessa através de estados alterados ou estudo profundo. Mas a resposta do homem é simples. Realidade é tudo que existe. O saleiro. A mesa. As pessoas conversando.
Cometemos o mesmo erro hoje. Achamos que estar presente significa ter uma experiência profunda. Luz flutuante. Dissolução de fronteiras. Unidade cósmica. Mas Watts diz que o objetivo está aqui. É esta experiência presente, exatamente como ela é. Mesmo que seja chata. Mesmo que seja dolorosa. Mesmo que seja apenas lavar a louça.
Por Que Nós o Perdemos
Se o agora é tão óbvio, por que o perdemos?
Porque estamos sempre pensando no próximo momento. Comemos enquanto checamos o celular. Andamos enquanto planejamos o dia. Ouvimos enquanto formulamos nossa resposta. Nunca estamos totalmente no momento porque estamos ocupados demais tentando chegar em outro lugar.
Watts diz: “Panela vigiada nunca ferve.” Se você tentar vigiar sua mente se concentrar, ela não se concentrará. Se tentar forçar-se a estar presente, estará ausente. O esforço em si é o obstáculo.
É por isso que hábitos simples geralmente funcionam melhor que práticas intensas. Quando você transforma presença numa obrigação, reforça a ideia de que não é seu estado natural. Mas é. Você estava presente antes de aprender a se preocupar. Estará presente depois que parar.
A Jangada e a Lua
Watts usa outra imagem. Religião e filosofia são como uma jangada usada para cruzar um rio. Quando você chega à outra margem, deixa a jangada para trás. Não a carrega nas costas.
A maioria de nós fica preso na jangada. Continuamos estudando a jangada. Discutimos qual jangada é melhor. Entramos em grupos baseados em preferências de jangada. Mas a jangada nunca foi o destino. Era apenas uma ferramenta para te levar a algum lugar.
O destino é a lua. A realidade. O momento comum. E você não pode ver a lua enquanto olha fixamente para a jangada.
Isso se aplica a toda prática espiritual, incluindo a atenção plena. Se você está usando atenção plena para se tornar mais atento, ainda está na jangada. A prática deve desaparecer no viver. Quando a religião se torna real e eficaz, ela desaparece.
O Que Fazer em Vez Disso
Watts tem uma resposta direta para isso.
Watts diz: “O único jeito de se concentrar é se concentrar.” O que parece circular até você perceber que ele quer dizer pare de pensar em se concentrar. Apenas faça.
Se você está sentado, sente-se. Se está andando, ande. Se está pensando, pense. Mas não pense e reflita desnecessariamente, compulsivamente, por pura força do hábito nervoso.
No Zen, eles chamam isso de ter uma mente furada. Como um barril velho com juntas abertas que não consegue se conter. Seus pensamentos se espalham em todas as direções porque você está ocupado demais pensando sobre pensar.
A correção não são tampas mais apertadas. É notar o vazamento e deixá-lo ser. Notar já é suficiente. No momento em que você nota que está pensando sobre pensar, você já está presente.
A Ilusão do Caminho Espiritual
Gostamos da ideia de um caminho espiritual porque nos dá algo para fazer. Uma jornada com começo, meio e fim. Uma montanha para escalar. Um estado a atingir.
Mas Watts diz que não há caminho. Não há montanha. Há apenas isto. E quanto mais você procura, mais se convence de que o que quer está em outro lugar.
É por isso que pessoas passam décadas em caminhos espirituais e ainda se sentem insatisfeitas. Estão procurando algo extraordinário numa vida que já é extraordinária, apenas comum.
Os quatro hábitos da felicidade apontam numa direção semelhante. Gratidão, movimento, conexão, presença. Não porque são práticas exóticas. Mas porque te trazem de volta ao que já está aqui.
Perguntas Frequentes
Isso significa que meditação é inútil?
Não. A meditação pode ser útil como jangada. Pode ajudar você a ver a natureza da sua mente. Mas se você continuar carregando a jangada depois de atravessar o rio, ela se torna um fardo. Use-a. Depois a solte.
E se meu momento comum for doloroso?
A dor ainda é um momento. Ainda é real. Resistir à dor te afasta da realidade, não te aproxima. A neurociência das emoções mostra que os sentimentos completam seu ciclo quando você os deixa. O sofrimento vem da resistência, não do sentimento em si.
Como sei se estou realmente presente ou apenas pensando em estar presente?
Você saberá pela qualidade da sua atenção. Quando você está verdadeiramente presente, não há um narrador interno comentando a experiência. Há apenas a experiência. Se você está pensando “estou presente agora”, não está. Mas tudo bem também. O notar é suficiente.
Há diferença entre estar presente e ter atenção plena?
Atenção plena é uma técnica. Presença é o que resta quando a técnica cai. Você pode praticar atenção plena para chegar à presença. Mas a presença não precisa de atenção plena. Ela já está aqui.
E quanto a metas e ambições? Devo abandoná-las?
Não. Você pode ter metas e ainda estar presente. A diferença é se a meta está dominando sua vida. Se você está tão focado no futuro que não consegue aproveitar o presente, a meta se tornou um tirano. Se a meta é uma direção mas não uma exigência, está tudo bem.
Por que todos fazem isso soar tão complicado?
Porque complexidade vende livros. Porque professores precisam de alunos. Porque o mercado espiritual prospera na ideia de que o que você quer está em outro lugar, e você precisa da ajuda deles para chegar lá. Mas não precisa.
A Prática Que Não É Uma Prática
Watts gosta de dizer que o único jeito de entrar no estado de concentração é abruptamente. Sem demora ou hesitação. Apenas faça.
Isso soa como uma contradição. Como você pode apenas fazer sem tentar fazer? Mas ele quer dizer pare de negociar consigo mesmo. Pare de planejar. Pare de se preparar. Apenas olhe para a coisa diante de você.
Um saleiro. Uma árvore. Um rosto. A luz na parede. O que quer que esteja lá. Olhe diretamente. Não através de pensamentos. Não através de memórias. Não através de comparações. Apenas olhe.
Isso é tudo. Leva um segundo. Se sua mente vagar, volte. Não como fracasso. Apenas como o próximo momento.
A prática de notar não é sobre se tornar alguém que está sempre calmo. É sobre notar quando você não está calmo, e não fazer disso um problema.
O Que Realmente Está Aqui
Da próxima vez que você se pegar procurando por algo mais, pause. Olhe ao redor. O quarto onde você está. Os sons que ouve. As sensações no seu corpo. Os pensamentos passando pela sua mente.
Isto é tudo. Este é o agora eterno. Não porque é perfeito. Mas porque é real. E é a única coisa que já existiu.
Você não precisa se tornar quem você é. Você já é. A procura é a única coisa que faz parecer diferente.
Pare de procurar. O momento já está aqui. E é mais que suficiente.
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